Entrevista com a professora Nieves Carvalho Fernandes

Escrito por Lucas F. Gonçalves em 08 dezembro 2011 | 12:22


Nascida em 13 de novembro de 1940, 71 anos, moradora do bairro do Paes Leme, viúva de Aimoré Fernandes vice de Eduardo Elias em 1974. Mãe dos gêmeos Laérson Luiz Fernandes e o Laerton que faleceu 13 dias após ter nascido, o Luiz Anderli, o Liomar (Mazinho), Luciano Henrique Fernandes E Maria Cecília. Conviveu com Zilda Arns durante seu trabalho na Pastoral da Criança. Entre suas origens, uma chama a atenção, a cigana.
“Não há como retirar de mim esta parte cigana. Seria como dizer que eu não me amo”.

GJ – Conte como começou sua história.

Meu bisavô veio de Lages. Ele se apaixonou por uma cigana e a trouxe consigo, cavalgando até o bairro do Mirim, lá o meu pai Eliziário Teixeira de Carvalho nasceu. Meus pais eram moradores do Mirim, depois vieram para o Paes Leme, onde colocaram um comércio, o “Boteco dos Compadres” que supria o pessoal de Imbituba com vários itens. Minha mãe era Cecília Guimarães Pacheco de Carvalho, da Araçatuba, de origem judia e portuguesa, gente que trabalhava muito com vendas, tecidos de seda. Sou a 4ª filha do casal. Minha mãe era uma mulher muito linda, loira dos olhos azuis, eu puxei mais os traços do meu pai.

GJ – Onde a senhora nasceu?

Minha mãe engravidou de mim no Paes Leme, mas durante este período foi para casa da minha avó Maria Luiza da Anunciacíon de Jesus, que era cigana. Ela queria que eu nascesse na casa dela, no Mirim. Minha mãe conta que no sétimo mês de gestação, estava com a minha avó e o padre Rossi, sentados na Praça do Mirim, quando ouviram meu choro no ventre de minha mãe. O padre disse, “bendito o fruto do teu ventre”, pôs a mão na barriga de minha mãe e orou, dizendo que eu recebi um dom do Senhor. Quando ela me gerou no Mirim, após nove dias. É o número de coros de anjos que existem no céu e obedecemos a isto. O primeiro dia em que recebi o sopro de vida era de Deus. A partir do segundo dia, seguíamos uma escala angelical e eu era entregue ao anjo da guarda. No último dia, o dia nono, eu fui batizada e recebi meu nome. Meus pais disseram juntos em meu ouvido: Vezeni Lhovacar Desnanfer (romanês), Nieves Carvalho Fernandes (língua comum).

GJ – O que houve após este período?

Em seguida viemos para o Paes Leme. Além do Clube de bailes, ele tinha plantações e criação de animais. Foi aqui neste bairro que eu vivi toda minha vida.

GJ – Na tradição de vocês, existem padrinhos de batismo?

Sim, mas eu escolho depois que cresço. Escolhi aos 5 anos de idade. Havia um baile no Clube do meu pai e ele me disse que aquele era o dia. Escolhi minha prima Maria de Lourdes Carvalho que hoje mora no Rio de Janeiro e o Heitor Fortunato, que era um jovem muito lindo. Até hoje eles me tratam como filha. O seu Heitor mora na João de Oliveira Filho, no centro da cidade. Meu batismo aconteceu na Igreja Católica.

GJ – Como foi a sua infância?

Muito feliz. Eu era uma criança muito amada. Nunca ganhei nenhuma palmada dos meus pais, sempre fui corrigida por eles com provérbios. Chamava meu pai de bato e minha mãe de dai, em romanês significa pai e mãe, na língua cigana.

GJ – A senhora tem muita ligação com o povo cigano?

Eu ajudo muito o povo cigano. Quando eles aparecem por aqui eu visito os acampamentos, sei quem é cigano e quem não é. Faço essa distinção pelo idioma. Se não fala romanês, não é cigano. A nossa crença não está firmada em cartas de baralho, ou ler mãos. Cremos em Deus, em Seu Filho e no poder da salvação. Sabemos que somos herdeiros de um lugar celestial.

GJ – O que a senhora adquiriu desta cultura?

Nós viajávamos muito, acampávamos muito. Eu só não conheço o Amazonas, o Acre e o Amapá. Mesmo assim, meu pai nunca permitiu que isto impedisse que a gente crescesse na vida. Todos os meus irmãos estudaram.

GJ – Existe muito preconceito com o povo cigano?

Até hoje eu encontro. Alguns têm até vergonha de dizer que tem ciganos na família. Eu, pelo contrário, me orgulho muito. Sou muito feliz, tive uma juventude maravilhosa, sempre dancei no Atlético... Foi tudo muito lindo. Não há como retirar de mim esta parte cigana. Seria como dizer que eu não me amo. Eu já nasci feliz e abençoada, segundo o padre Rossi do Mirim.


GJ – Onde a senhora estudou?

Comecei na Escola Isolada do Paes Leme e depois fui para o prédio onde é a Rádio Bandeirantes hoje. Na época ali ficava a Escola Henrique Lage. Foi ali que conheci o Aimoré. Ele era mais velho que eu e fui escolhida para cantar a música Bela Aurora na formatura dele. Fui com uma sainha comprida de cigana e quando ele me viu cantando, se destinou a aprender violão. O Aimoré se apaixonou por mim, não era cigano, mas era chamado Gadjé que é aquele que se submete aos princípios da esposa.

GJ – Então, foi amor a primeira vista?

Sim. Ele se apaixonou pela cigana. Eu era uma menina de longos cabelos cacheados, cheia de anéis, jóias e trajes diferenciados. Ele me olhou e logo pediu um anel, acho que pra levar de recordação. Depois ele me enviou um bilhete e eu expliquei que não podia namorar. Ele achou melhor ainda, pois conheceria minha família.

GJ – Quando ele falou com os seus pais?

Durante minha festinha de 15 anos. Ele foi falar com o meu pai, que disse: “Se ela quiser ficar contigo, posso prometê-la a ti, mas não poderão sair juntos, nem terão contato, terão que esperar”. Com 15 anos eu fui para Criciúma e trabalhei na rádio El Dourado no programa: “A Paz Começa em Nosso Lar”. Morei durante um ano na casa do meu irmão mais velho, para me manter distante. Enquanto isso, o Aimoré sempre curioso sobre nossa cultura, visitava meu pai com frequência. Depois de prometida eu só fui noivar três anos depois.

GJ – Como foi o casamento com o Aimoré?

Ele sempre foi fiel a mim no tempo de espera. Quando conversávamos, era de longe e sempre com nossa família presente fazendo parte do assunto. O meu casamento foi cigano, em minha própria casa. Nosso casamento foi com pacto de sangue. Se pega uma pedra, corta-se o braço de ambos com uma espada, meu pai quem fez o corte e deixa gotejar o sangue na pedra. A marca está ali até hoje. Não me considero viúva. As últimas palavras do meu esposo foram: “eu já vou calin, mas eu te amo”. O último presente que ele me deu foi o esforço para escrever um bilhete de como ele me via.

GJ – Como foi o período em que o Aimoré foi vice de Eduardo Elias?

Meu marido era alfaiate e o seu Eduardo era taxista. Eu e a dona Isabel nos dávamos muito bem, a Selma era menina novinha ainda e meus filhos também eram adolescentes na época. Trabalhamos muito, não tínhamos dinheiro, mas tínhamos representação. Ele só saia da prefeitura e já ia costurar paletós para o Dr. João Rimsa, para o Padre Itamar... Ele tinha muito orgulho de ser alfaiate e se aposentou nesta profissão. Ele tem o nº 33 como sócio fundador do Atlético, ele fazia a limpeza, passava cera... Vendia torradinha... Isso tudo na adolescência. Agente lutava muito naquela época, desde criança. Eu aceitei entrar com ele na política com uma condição: que ele sempre fosse o mesmo homem e que o objetivo fosse fazer o bem ao próximo. E assim foi. Até o último dia dele.

GJ – E nas salas de aula, como a senhora era lecionando?

A minha irmã já dava aula na Ribanceira, bem pra lá do Engenho do Farias. Quando eu tinha 15 anos, houve uma explosão num galpão do Porto de Imbituba com muitos feridos. O único que sobreviveu foi o meu cunhado, pai do Dr. Manoel Fernandes, o “Dé”, que mora no centro. Então minha irmã me chamou e pediu pra mim assumir a sala de aula enquanto ela visitava o marido entre a vida e a morte no hospital. Depois desta experiência, comecei a dar aulas no Paes Leme. Lecionei por 30 anos e fui durante 5 anos, diretora do Colégio Annes Gualberto.

GJ – Como iniciou seu trabalho na pastoral?

Quando me aposentei, 3 meses depois meu marido também. Então, comecei a dar aula de catequese na Ribanceira. Já estava acostumada porque dava aula de catequese no Paes Leme desde os 15. Fui a primeira do bairro. Com este convívio com as crianças eu aprendi a servir aos outros. Iniciei a Pastoral em 1990, mas já sabia lhe dar com o auxílio ao próximo.

GJ – Sobre seu convívio com Zilda Arns?

Foi na época que estive em Curitiba. Ela vivia na minha casa e eu na casa dela. O último encontro da Pastoral foi para nos despedirmos. Ela seguiria para África e depois para o Haiti. Eu perguntei pra ela porque ela não deixava para ir no ano que vem. Ela disse que quanto antes melhor porque aquele era um pessoal muito sofrido. Ainda brincou comigo: “é sempre bom ouvir uma cigana né?” Até hoje o este pessoal do Movimento Mariano frequenta minha casa quando passa por aqui.

GJ - Obrigada por esta entrevista fique a vontade para se despedir.

Agradeço pela visita e peço que as famílias sejam mais unidas e que como a minha, tenham a mentira como um grande mal, não deixem ela entrar. Eu sei que eu era o Cristal da vida do meu esposo. Eu não sou perfeita, mas sempre soube silenciar quando preciso. Guardo só coisas boas em meu coração. Sou feliz em morar na comunidade do Paes Leme, pois aqui tem tudo que eu preciso e aqui aprendi a falar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Como é o nome completo dos filhos dela?

Anônimo disse...

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